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Story: Um coliseu romano, um carro de rally, um sinal de "Hollywood" e um drive-in com um hamburger no telhado

Escrito em 26 de maio de 2021

Story: Um coliseu romano, um carro de rally, um sinal de "Hollywood" e um drive-in com um hamburger no telhado

O dia já era longo. Abria a porta e os miúdos passam-me pelas pernas com a tontice de chegar a casa.

- Todos para o banho! - gritava eu, com esperança que o tom de voz fosse persuasão suficiente para que aquelas criaturas fossem de livre e espontânea vontade para a banheira. Poiso as coisas na cadeira da sala e toureio os pequenos para o inevitável banho. Pego numa debaixo do braço e o outro vai logo a correr porque, afinal, quer ser o primeiro a tomar banho. A água lava tudo, até a irrequietude da escola que os acalma e os traz de novo à terra. Lavadinhos e vestidos, soltei-os de novo, aproveitando o pequeno compasso de espera para tratar do que tinha de ser tratado, incluindo o jantar para aquela tropa toda.

O grande foi enfiar-se na TV e a mais pequena foi direita à parede do fundo da sala, armada do seu estojo que tinha ficado no chão o dia todo. Pega no azul e continua a pintar o azul do rio que atravessa a cidade imaginária daquele poster gigante que a tia lhe tinha oferecido pelo Natal, colado na parede oposta à janela. Eu ainda tinha o jantar para tratar, mas a vontade de o fazer deixou-me ali especada, a olhar o marcador a calcorrear o rio, um tracinho de cada vez.

"Que se dane!", pensei eu, até porque era um bom motivo para protelar mais uma obrigação do dia.
- Linda, como é que eu faço isto? - perguntei, em modos de autorização para participar naquele espaço?
- Tens de pintar esta estátua de amarelo, porque é de ouro. - disse-me, apontando para uma esfinge desenhada no meio de uma rotunda. Procurei o amarelo, no meio do estojo depositado ao joelhos dela. E comecei pelas orelhas. E fui disparada pelo pescoço, pelas patas e ia a avançar pelo corpo, um tracinho de cada vez.

- Não!
- Caramba, que até me assustei!
- Tens de pintar as patinhas de castanho. - declarou. - Igual ao nosso patinhas.
"Patinhas" era o nosso companheiro felino, que já nos acompanhava desde a casa anterior, antes de mudarmos para esta casa. Se eu queria participar, tinha de respeitar algumas regras. No mínimo, não podia só atirar as cores para a tela. A cada novo obstáculo que tinha para pintar, fazia um pequeno exercício de raciocínio entre "como é que ela pintaria isto?" e "de que cor é esta coisa na realidade?".

A seguir à esfinge, apareceu um coliseu romano, um carro de rally, um sinal de "Hollywood" e um drive-in com um hamburger no telhado.

- O JANTAR!!! - atirei o marcador para o chão sem o tapar, o que deu direito a um "HEY!" da minha filha, e fui direita ao frigorífico. "P**ra", disse eu para com os meus botões. Tinha ficado tão absorta com o poster, que me esqueci completamente do Jantar. "O que é que vamos comer hoje?" - pensava eu em loop na minha cabeça.

Fechei o frigorífico e rendi-me que tinha de arranjar uma alternativa. Enquanto percorria o menu de um fast-food no telemóvel, encostei-me à ombreira da porta e o meu olhar distraiu-se de novo com o poster da minha filha. Dali, dava para ver o que eu tinha pintado, um tracinho de cada vez. Apercebi-me que aquele poster já não era só da minha filha, que eu também já lá estava dentro. Aliás, foi ali dentro daquele poster que me sentei e esqueci de todo o lastro que tinha trazido do trabalho, do dia, das preocupações. "Valeu a pena", pensei. Não estava só a encontrar uma desculpa para encomendar os hamburgers com batata sem peso na consciência. Ao longe, a minha pequena virou a cara e sorriu ligeiramente na minha direcção. Voltou para o poster e foi a confirmação que eu tinha de voltar ali.

 

(Segue o link para ficar a conhecer melhor os Posters Gigantes de Colorir da OMY.)